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segunda-feira, 12 de março de 2012

Kk: pós Ashram... já da China


Já saí da Índia há 11 dias e hoje consigo terminar de atualizar o blog, já que escrevi os outros posts no iPad e só falta publicar.
Não sei se não escrevi ou se perdi a nota final da Índia.

Bom, foi assim: acabei passando mal só aquela manhã mesmo e acho que, no final das contas, foi só cansaço. É pouco provável que qualquer coisa infecciosa tenha durado apenas uma manhã. O corpo parou de doer depois que entendi que o estava agredindo: melhorei a postura (ou ele se acostumou às posições) e tudo certo.

O meu último dia no Ashram foi especialmente emocionante e validou o começo de um novo caminho interno que pretendo espreitar.

A volta para Delhi foi bem tranquilinha: contratei o táxi a partir de um agente de turismo conhecido pelo Ashram. A viagem pareceu bem mais curta e os contratempos, como um congestionamento por causa de obras contornado por um desvio louco do meu motorista, pareceram-me mais uma cena divertida para recordação que qualquer outra coisa.

Fiquei bastante tempo de bobeira no aeroporto de Patna antes de ir para Delhi. Vôo tranquilinho, também. Só não dá mais o ar condicionado sempre desligado da India Airways e a aeronave MUITO suja.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Kk: Munger, Índia, 22 de Fevereiro de 2012


Os dias estão voando e nem parece que uma semana aqui já se foi. Hoje, fiquei triste pela primeira vez na viagem. Eu estava fazendo o meu cleanning seva (o trabalho matinal de limpeza) - aliás, o trabalho solitário ou em silêncio é ótimo para reflexão - e me lembrei de um banheiro que me é muito familiar no Brasil. Aqui, pede-se que a descarga do sanitário seja acionada quando "estritamente necessário". Para as outras situações, como "número 1", é solicitado o uso de uma canequinha de água 2 vezes. Há uma torneira em cada portinha do banheiro. Há ainda, um rodinho para secar o chão e adjacências após o uso da caneca. A lixeira para os papéis higiênicos ou jornais utilizados como tal, é uma só e fica do lado de fora. Mesmo assim, o banheiro está sempre infinitamente mais limpo do que de muito ligar em Belo Horizonte freqüentado por uma elite instruída e onde há funcionários o dia inteiro tentando, em vão, manter o ambiente apresentável. Isso me doeu muito. Um dos grandes princípios do Ashram é servir desinteressadamente e isso está muito longe de ser a realidade de muitos ambientes onde vivo.

Alegrou-me lembrar das pessoas que praticam o servir com muito amor e dedicação, como meus pais, as mulheres da minha família e algumas outros queridos ou conhecidos como Adrinez, Carol e Neto.

Dica do dia: The Seven Spiritual Laws of Yoga - a pratical guide to healing body, mind and spirit. Ed. Wiley India, 2007, Deepak Chopra e David Simon. Eu tenho e posso emprestar quando chegar.

22 de Fevereiro/ noite

Aqui não há tomadas disponíveis e, nem chorando ou fazendo cara de piedade eles recarregam as baterias dos eletrônicos na secretaria. Com isso, estou sem o iPad, onde geralmente tomo notas e escrevo os rascunhos dos posts. Restaram-me, então, como local para anotações, os versos dos emails que eu trouxe impressos com dados das reservas, passagens, essas coisas. Estou numa economia danada de papel. Até agora, foram 14 páginas em 07 dias. Isso vai me complicar um pouco as coisas para manter o blog em dia...

Kk: Munger, Índia: 6o dia no Ashram ou como tomar banho frio, no frio


A rotina tem ficado mais pesada e comecei a entender porque aqui todos comem tanto (principalmente arroz, no café da manhã, almoço e jantar) e são tão magrinhos. A minha agenda está assim hoje: 05:40 servir café da manhã, 07:00 seva de limpeza - hoje eu mais um limpamos o banheiro do prédio principal, 08:00 - 11:00 ajudar na cozinha (lembrando que a cozinha produz refeições para mais de 200 pessoas), 11:00 almoço. Hoje, após o almoço, ajudei a limpar muitos muitos metros de lona sob o sol da Índia cozinhando as idéias, 14:00 pausa para um leite gelado com especiarias. A seguir, trabalho na cozinha. 17:00 jantar. 18:00 cerimônia especial em comemoração da união dos deuses Shiva e Parvati. O evento foi lindo, ao ar livre, com rituais e cantos, mas durou umas 2 horas e eu, que já estava um caco, nem consegui manter a mente muito presente. Os joelhos, então...

Relendo esta narrativa, o trabalho nem me parece tão árduo mas, foi ou, pelo menos, senti como tivesse sido e não é por falta de atividade no Brasil. Ébem freqüente eu passar 12 horas à noite trabalhando ininterruptamente.

Quando cheguei ao quarto, além de morta eu estava imunda de sujeira das lonas, de terra de batata, suor e por aí vai. O banho era "impulável". Juntei a pouca coragem que tenho e encarei a água fria, no frio. Antes do banho, eu estava usando blusa de manga comprida fina, casaco com 2 camadas, calça e cachecol.

Como há muito tempo não dou dicas de viagem, aí vai :-P
Para tomar banho em condições térmicas desfavoráveis:
1. já deixe tudo pronto para vestir, inclusive a peça que for vestir primeiro (da parte do corpo que sente mais frio) por cima.
2. entrar direto embaixo da fonte de água (a minha é uma torneira de altura mediana) pode até limpar melhor mas, a temperatura...Então, o pulo do gato é pegar a água com as mãos em cuia porque estas podem aquecê-la.
3. jogar a água no corpo. Se você não possui as mãos quentes como a minha ou não consegue manter a temperatura das mesmas, o jeito é tremer de frio!
4. Manter o corpo encolhido também ajuda a manter a temperatura. Para quem passou o dia inteiro com as pernas bem dobradas, um banho agachado não é nada demais.
5. sempre que possível, deixar o banho para as horas mais quentes do dia.

Kk: Munger, Índia, 19 de Fevereiro de 2012 (continuação)

Com pessoas especiais:

Kk: Munger, Índia, 19 de fevereiro, 2012


Hoje a rotina do Ashram voltou ao normal. Grande parte das pessoas que estava aqui partiu para casa ou para cursos e eventos um um outro Ashram, há umas 4 horas daqui.

A experiência da estadia está sendo muito rica e acho que escreveria una infinidade sobre ela - provavelmente, tedioso para quem lê. Por isso, tentei dividir por temas. Uma observação é que toda a vivência aqui tem uma dimensão espiritual e emocional - aliás, provavelmente a parte mais rica da viagem. Entretanto, isso é assunto para outra prosa, para outro momento e requer um grau de intimidade que o blog não dá.

Água: estou num lugar com restrição de água e pobre. Além do mais, um pensamento muito óbvio e simples e que habitualmente esquecemos, é que o meio ambiente em que vivemos faz parte da gente. Somos uma extensão dele e vice-versa. Assim, aqui economia de energia elétrica e de água é a máxima. No banheiro, os sanitários são do tipo (em alguns países, conhecido como banheiro turco) e não há chuveiros. Nas cabininhas de tomar banho, há uma torneira de água sem aquecimento, um balde e uma caneca. Não foi tão ruim quanto parece e não tive grandes dificuldades para lavar meu cabelo (com comprimento quase até a cintura). Devo admitir que, em um dia muito frio, pulei um banho. Mas foi uma exceção. Havia, ainda, no banheiro, baldes para lavar roupa e, no prédio principal, um tonel de água potável.

A comida: as refeições são bem saborosas. Há o café da manhã às 05:45 - geralmente chá e mais uma opção à base de arroz. Às 11:00 há o almoço: arroz temperado, um cozido de legumes em ocasionalmente, um pão fininho. Às 13:00 há o chá e às 17:30 jantar. Apesar da comida soar como pouco nutritiva, o cozido de legumes é bem variado: leva diversos ingredientes. Sei porque trabalho na cozinha. Tudo é vegetariano. Não há talheres e o predominante é comer com as mãos mesmo. A sensação é estranha, além de não ser bonito de se ver. Acontece que as opções são praticamente duas: comer com as mãos ou não comer. Eventualmente se acha uma colher com carinha suspeita. Em uma das minhas primeiras refeições, encontrei uma dessas e não estava de bom aspecto. O raciocínio foi simples: a mão é minha, eu sei onde ela esteve e fui eu quem lavou. O pão fininho também ajuda. Ele pode ser usado como pinça. No quarto dia, pensei já ter superado completamente essa questão de comer com a mão, quando o café da manhã foi mingau. Sugiro experimentar na frente do espelho. Não é permitido conversar durante as refeições. Cada um lava seu prato (parece uma forma média de pizza, tamanho médio, dessas de alumínio) em um lugar parecido com lavatório de escola pública, com várias torneirinhas. Não há bucha ou sabão e as coisas são lavadas com cinzas da cozinha, disponíveis num balde próximo às torneiras.

O lugar: o Ashram é bem grande e, contando com a população rotativa, vivem aproximadamente umas 250 pessoas. Há diversos prédios, de até 05 andares com habitações, cozinha, local de orações, horta, jardins, etc. Os quartos são confortáveis e, os que conheço, são de 02 camas e de 02 janelas. As camas são pequenas, confortáveis e têm mosqueteiros. Não se entra de sapatos na maioria dos lugares, principalmente os de orações e de refeições. Isso é um costume indiano e, nas lojas das cidades, é habitual ver-se as pessoas descalçando-se para entrar.

O trabalho: faz parte da vida aqui, como em qualquer comunidade, um trabalho. Todo mundo tem a sua tarefa e isso é chamado de Seva. Comecei o meu no segundo dia e era servir café da manhã às 05:45 - gostoso porque eu, dentre outras coisas, tinha a oportunidade de ver todo mundo. Após o fim das festividades, o horário de dedicação ao trabalho aumentou e comecei a ajudar, também, na cozinha, picando e descascando legumes durante a manhã e a tarde.

O corpo: o horário de dormir é bem cedo, antes das 21:00 e, o de acordar, aproximadamente às 05:00, o que dá 8 horas de sono. O meu habitual são 05 e com alguma dificuldade. Não tive tantos problemas para dormir aqui, apesar de acordar algumas vezes durante a noite. O corpo está sempre exausto ao fim do dia, principalmente as pernas e as costas. Não há cadeiras ou mesas e todas as atividades (exceto dormir e as filas são realizadas estando-se sentado ou agachado ao chão). Imagine: todas as refeições, estudar, "rezar", ouvir "palestras", descascar legumes, ir ao banheiro... Mas com o tempo, a postura vai se tornando natural. Quando pensei estar me adaptando, o trabalho se intensificou e, como estou vindo de uma fase bem sedentária no Brasil e utilizando outros grupos musculares na minha rotina em BH, as dores pioraram e veio a exaustão. Comecei a contar os dias... Querer ser uma pessoas melhor exige muito esforço e disciplina - tenho uma grande caminhada pela frente.
Para dar uma idéia do meu trabalho na cozinha e, indiretamente, da minha alimentação, nesses 14 dias eu:
- descasquei/ piquei: batata, cenoura, beterraba, cebola (3 dias depois e o cheiro continua), repolho, ervilha, couve-flor, vagem, banana, mamão verde, tomate, etc.
- tirei a ponta de vagem e miolo de pimentão.
- catei: arroz comum, arroz em flocos, feijão e cereal que nunca vi no Brasil.
- abri shapati (o pão fininho).
- lavei: faca, lona, tábua, pratão, pratinho, pia, liqüidificador, parede de cozinha.
Como os indianos são extremamente amigáveis e carinhosos (acho que também sou receptiva), a cozinha acabou virando aula de hindi e de inglês. A maioria dos indianos aqui fala inglês, mas com um sotaque todo especial, e como o meu inglês já não é lá essas coisas...
Eu, ainda, colei hologramas em livros da editora da escola de Yoga, limpei almoxarifado, ajudei a contar centenas de uniformes e roupas paz doação, etc.

As pessoas: definitivamente, o melhor da viagem está sendo a "viagem humana". No Ashram, vivem, basicamente, os monges, os alunos e os visitantes. Os alunos fazem cursos de algumas semanas a quatro meses ou são um tipo especial de discípulos, que abdicam de suas vidas habituais e vínculos e moram lá por 03 anos. Conheci e fiz amizade com pessoas incríveis como a Liz, uma canadense de coração brasileiro que estava no Ashram como visitante, assim como eu. Ela já morou no Brasil, fala português perfeitamente e sabe jogar capoeira. Teve ainda as queridas "meninas" indianas, Karuna, Sônia e Radhika, com quem tive oportunidade de conversar sobre as diferenças culturais de cada país. Encontrei muitos brasileiros especiais, como a Patrícia, brasiliense que está morando n Ashram e Ganga Dara e Agoranada, do Centro Satyananda de Belo Horizonte (proporcionaram-me emoções inenarráveis). Outra pessoa especial foi o senhor Gautam, indiano que estava de visita ao Ashram por uns dias e que, sempre que possível, ensinava a mim e à Liz o significado das expressões, dos rituais... Éramos das mais diversas nacionalidades (além das acima,búlgaros, espanhóis, iranianos, italianos, argentinos, colombianos, coreanos, suíços, australianos, etc) e a motivação para estar lá também era muito heterogênea (desde formação para trabalhar a posteriore com Yoga a gente que não sabia exatamente o que as conduziu até ali).

Fotos: banheiro, refeitório, café da manhã, almoço, situação que as mãos ficaram. Lembrando que o App do Blogger muda as fotos de ordem. As fotos continuam no próximo post.